“Tem pessoas tão chatas que fazem a gente perder um dia em cinco minutos.”
Foi essa a citação mais equivocada que eu escolhi para estampar um ímã de geladeira, que graças ao bom senso eu desisti de dar de presente a você.
Eu devia ter uns 17 anos quando encontrei essa mensagem no meio de tantos outros itens do sebo do antigo Espaço Unibanco, meu point de vestibulanda aos domingos. Juro que na hora pensei que o autor estava sendo irônico ao chamar de “chato” alguém capaz de fazer o tempo passar tão rápido. Alguns anos depois, revirando uma caixa de recordações, encontrei o envelopinho pardo e só pude rir com a frase que eu nunca diria a alguém tão agradável.
Bem, agradável não é a melhor palavra para descrever essa espécie de amigo que pontuou a minha adolescência. Eu o conheci por acaso, me aproximei ainda por acaso, motivo também pelo qual o apresentei para uma grande amiga e seu então primeiro amor, acredito. Longe de querer desenhar um triângulo, mantive apenas inevitáveis diálogos virtuais que me trouxeram a primeira visão masculina da vida a ser compartilhada comigo.
Por que uma relação construída de conversas de botequim merece um texto? Talvez combinasse mais com uma música, se eu pudesse roubar a melodia de Crush, do Dave Matthews Band. Porque foi a primeira de muitas composições quase melancólicas que não me trouxeram tristeza, mas uma introspecção engrandecedora.
Dizem que o primeiro amor a gente nunca esquece, mas eu até gostaria de esquecer um tanto do meu. Já o primeiro a me confessar sentimentos, transparecendo sua insegurança e reconhecendo a minha, esse que não foi amor mas me fez sentir amável, esse eu não preciso esquecer. Quero guardá-lo com um carinho infantil no lado doce da memória, e poder relembrar os tempos de olhares envergonhados, frente a frente ou quando recebo notícias suas da Polônia.
Do meu grande quase amigo eu aceito, ainda que receosa, o convite para a mesa de bar, aquela que vem sendo adiada por nós há tanto tempo e que talvez nunca chegue a ser devidamente ocupada.